Espaço a explorar
O mercado segurador brasileiro deve fechar 2015 com um crescimento de 12% nominais, completando, assim, seis anos consecutivos de expansão de dois dígitos. O resultado foi a conquista de um marco histórico: em junho, pela primeira vez, os ativos das seguradoras ultrapassaram os dos fundos de pensão.
Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), o volume de ativos acumulados pelas seguradoras - todos os ramos, exceto saúde - atingiu R$ 754 bilhões comparados aos R$ 738 bilhões dos fundos de pensão.
Seguradoras e fundos de pensão são os maiores investidores institucionais do país e esse volume recorde de quase R$ 1,5 trilhão está aplicado em títulos públicos (a maior parte) e privados, renda fixa e variável, imóveis, participações acionárias e outros. "Isso mostra a força do setor de seguros no país", destaca o titular da Susep, Roberto Westenberger.
A comemoração, porém, para por aqui. Westenberger lembra que já em 2014 o setor veio em desaceleração, com o crescimento real (descontada a inflação medida pelo IPCA) da arrecadação em prêmios e contribuições caindo pela metade, de 12,7% em 2013 para 5,7%. E em 2016, com a recessão deste ano e a estimativa de IPCA superior a 5,5% o resultado pode ser mais tímido.
Marco Antônio Rossi, presidente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNSeg), explica que a projeção de crescimento de 12% está relacionada mais ao avanço sobre espaços inexplorados do que ao aumento de vendas. Além disso, o resultado geral abriga números positivos e negativos. "Alguns setores sofrem mais que outros com a crise", diz Rossi que também preside a Bradesco Seguros.
Contratos que cobrem riscos empresariais têm tido desempenho pior, enquanto os de varejo, voltados a pessoas físicas, continuam vendendo bem. A paralisação de obras de infraestrutura diminuiu as vendas e aumentou a sinistralidade dos seguros de garantia. Já o desemprego vem complicando o cenário para as seguradoras de saúde.
Ao mesmo tempo, os seguros de pessoas - que incluem vida, acidentes pessoais, viagem, educacional, garantias, funeral e outras modalidades - repetiram o bom desempenho dos últimos anos. O faturamento em prêmios de R$ 14,5 bilhões cresceu 10,5% no primeiro semestre de 2015 comparado ao mesmo período do ano passado, segundo a Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi).
Rossi destaca o movimento de aquisições pelo qual investidores estrangeiros aproveitaram o real mais fraco e dobraram suas apostas no mercado segurador brasileiro. "As empresas fora do Brasil continuam com apetite, independentemente do momento, o que mostra que as perspectivas de médio e longo prazo são boas", diz.
O caso mais emblemático é a francesa AXA que, após deixar o país em 2003, voltou no ano passado comprando por R$ 135 milhões a carteira de grandes riscos da SulAmérica. O Brasil será a sede da AXA para a América Latina onde a seguradora já tem operações na Colômbia e no México, diz o presidente da filial brasileira, Philippe Jouvelot. Embora tenha vindo da área de riscos empresariais, Jouvelot afirma que não há foco específico. A ideia é, no longo prazo (25 anos) operar em todos os tipos de riscos - ramos elementares, industriais, vida e previdência. "Em todos os países em que estamos, se não somos a número um, estamos entre as cinco primeiras", afirma Jouvelot.
A crise tampouco abalou o ânimo dos japoneses da Mitsui, seguradora ligada ao grupo Mitsui Sumitomo & Aioi Dowa (MS&AD). Helio Kinoshita, presidente da filial local, diz que o plano é crescer com foco em produtos dos ramos elementares e seguro de vida em grupo, no qual já atua hoje. "O Brasil é o foco da nossa estratégia de expansão nos países emergentes".
"Além do potencial de crescimento, o Brasil tem ainda uma nova classe consumidora que nunca comprou seguros antes", comenta Marcelo Munerato, principal executivo da Aon Risk, uma das maiores corretoras e consultorias de riscos globais. "Mas (a nova classe consumidora) começa a comprar, buscando proteção para bens como carros, computadores e celulares".
Para uma economia em recessão, o cenário do mercado segurador este ano não é ruim. Mas poderia ser muito melhor, diz Roberto Westenberger, destacando a baixa inserção do seguro na economia brasileira como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do setor.
"Quando olhamos mercados mais desenvolvidos como Chile, México e África do Sul, o Brasil ainda está longe", afirma o titular da Susep, comparando com países onde o seguro atinge de 15% a 20% do PIB (40% na África do Sul). Apesar de ter mais que dobrado de tamanho desde 2010, a participação dos seguros no Produto Interno Bruto não chega a 7% - incluindo o seguro saúde que não está sob supervisão da Susep, mas da Agência Nacional de Saúde (ANS).
Os obstáculos são tanto econômicos quanto culturais. Westenberger indica, de um lado, a pouca compreensão da população sobre os benefícios e a importância da proteção do seguro. De outro lado, um monopólio que durou 70 anos e travou as possibilidades e iniciativas de expansão - referindo-se ao Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
Para o titular da Susep, o desafio do setor é crescer mais, porém com sustentabilidade e o desenvolvimento de produtos que realmente atendam à necessidade dos consumidores, com margens razoáveis em relação aos parâmetros internacionais. "Para isso é necessário proatividade na oferta de produtos onde eles ainda não são consumidos; modernização e diversificação dos canais de distribuição", opina.
Uma pesquisa recente da consultoria Accenture mostra que os consumidores de fato não estão muito empolgados com o produto seguro. Ao coletar a opinião de 13 mil usuários finais de seguros de vida e não vida em 33 países, incluindo o Brasil, a Accenture descobriu que há uma insatisfação generalizada com o produto.
O número de pessoas que se disseram satisfeitas com suas atuais seguradoras foi menos de um terço (29%). O problema começa na etapa de prospecção e se estende pelo pós-venda, comenta Raphael Araújo, líder da área de seguros da Accenture Brasil. Segundo ele, 94% dos segurados que responderam à pesquisa disseram procurar informações na internet e, destes, 69% se disseram insatisfeitos com o que encontraram.
Araújo, destacou dois pontos diretamente relacionados ao país: 71% dos consumidores estão insatisfeitos, o que explica a penetração inferior a 10% dos seguros no mercado brasileiro, e 62% dos compradores baseiam-se apenas no menor preço para fazer o seguro. "Essa é uma indústria muito tradicional, de baixa inovação", diz. Para ele, as seguradoras ainda têm um grande esforço a fazer para sintonizar com tendências modernas como a economia de compartilhamento.

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